Origens e a Festa do Pinhão

Como “da terra”, “local”, “regional” ou qualquer outro rótulo que possa a ser conferido a um lageano nato, confesso ter ficado surpreso e apreensivo com o anúncio dos promotores da Festa Nacional do Pinhão com o retorno da tradição e a cultura serrana nesta 30ª edição.

Num primeiro momento ressábio no sangue de quem já assiste a pelo menos 20 anos o tema ser pouco valorizado na prática. Fora as campanhas publicitárias na época de Festa ou as campanhas políticas onde o tema é utilizado como identificação com o povo, nos últimos tempos foram são pouquíssimas ações de verdadeiro resgate ou valorização da arte regional. Para citar um o maior a Sapecada da Canção Nativa.

Refleti sobre a manifestação do MTG/SC que na minha opinião está correta na preocupação de que realmente o projeto seja genuíno e aconteça conforme esperado e chancelado pelo Ministério da Cultura. É verba pública onde as informações estão cada vez mais transparentes e o controle social começa a fazer efeito. A entidade tradicionalista reforça que sejam valorizados os grupos de dança, ginetes, artistas da terra. A Lei Rouanet passou por mudanças e aos poucos está de certa maneira forçando ao uso correto para a finalidade cultural estes recursos pelos promotores de grandes eventos.

Incomodou a alguns a indagação porque é a demonstração de que quando cultura regional, os artistas locais, a gente da terra se manifestam em relação aos assuntos de suas raízes vem à tona a imediata ideia de que é “bairrismo’. Encaro de maneira diferente quando um bairrismo sadio é uma das formas de prevenção e zelo do patrimônio material e imaterial da cultura de uma região.

O clamor pelo retorno das tradições na Festa do Pinhão não é do MTG/SC, Fundação Cultural, promotores do evento, prefeitura, entidades. É do povo que tem saudade de uma festa identificada com sua terra. Muitos em Lages e região tem alguma história de como era, de como tem sido e de como querem ver as coisas acontecerem.

Não confundir saudade com saudosismo. Saudosismo é aquele sentimento que atrasa muitas vezes nosso desenvolvimento, um sentimento de que o antigo era melhor, de que “no meu tempo era bom, agora…”, geralmente sentida por gente que não aceita novas ideias e pessoas. Saudade para mim move as pessoas ao engajamento, gente que quer sentir os bons momentos no presente para ter esperança de que a tradição não morra. Saudade é um sentimento da nossa tradição, é respeito pelos nossos antepassados.

Não sei se parte da comunidade serrana já percebeu que a poucos dias da Festa a responsabilidade passa também a ser nossa que gostamos e cultivamos nossas tradições. Responsabilidade da presença, de “atopetar” o parque nestes dias iniciais dos trinta anos da festa na esperança de ver mais da nossa música, do nosso folclore, da cultura campeira e artística. Não gostaria de escutar a frase, como já ouvi: “Viu gaudério não dá gente”.

Aos poucos estou tendo esperança, estou vendo se concretizarem ações e projetos e vou participar dentro das minhas possibilidades e funções cumprindo o meu papel também de receber bem os visitantes, mostrando o que é nosso, valorizando sempre o nosso chão. Lageanos e serranos faltam 50 dias para realmente avaliarmos como foi este resgate as origens. Contribuam à sua maneira, vamos ser positivos e que as críticas venham com o objetivo de preservarmos a nossa maior festa regional que é do povo serrano e catarinense e esta posse pode ser confirmada nesta edição histórica com a sua presença marcante.

Éder Goulart – cantor, produtor cultural e acadêmico de jornalismo

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